FPS, Timestamps e Vídeo de Taxa Variável na Perícia

Perito Judicial cadastrado no TJMG, TJSP e TJGO | Especialista em Reconstrução e Análise Técnica de Acidentes de Trânsito
·

Por que a taxa de quadros pode divergir do tempo entre imagens e como essa diferença afeta a cronologia e o cálculo de velocidade

Dois profissionais podem selecionar os mesmos quadros de um vídeo e chegar a intervalos diferentes. Um divide a diferença entre os índices pela taxa informada pelo reprodutor; o outro examina as marcas temporais associadas às imagens. A divergência pode ser apenas um erro de contagem, mas também pode revelar que a taxa geral não representa aquele trecho. Em perícia, essa diferença precisa ser explicada antes de calcular velocidade, comparar câmeras ou afirmar quando um evento ocorreu. O tempo é um dado de entrada que exige verificação, não uma propriedade infalível da reprodução em tela.

FPS descreve uma taxa; timestamp identifica uma posição temporal

FPS significa frames per second, ou quadros por segundo. É uma taxa que relaciona imagens e duração. Conforme a fonte e o programa, o valor exibido pode representar uma configuração nominal, uma média calculada ou uma informação derivada da estrutura do fluxo. Essas possibilidades não são automaticamente equivalentes.

Timestamp é uma marca temporal associada a um elemento da mídia. Em determinados contextos, indica quando um quadro deve ser apresentado. A diferença entre as marcas dos extremos pode fornecer diretamente o intervalo da linha do tempo. Entretanto, sua relação com o tempo físico de captura precisa ser examinada, principalmente quando houve exportação, conversão ou processamento.

As duas informações podem coincidir em uma sequência regular e validada. A taxa descreve o ritmo geral; as marcas identificam posições específicas. Quando há variações locais, a taxa média não basta para representar qualquer intervalo, assim como a velocidade média de uma viagem não informa a velocidade em cada curva.

Taxa constante e taxa variável

Em uma representação de taxa constante, os intervalos de apresentação são regulares. Se essa regularidade e a correspondência com a gravação foram verificadas, a diferença entre índices pode ser relacionada à taxa para obter o tempo. Ainda assim, a estrutura constante não comprova por si só que a captura original foi igualmente regular.

Em taxa variável, os intervalos entre imagens podem mudar. A sequência pode apresentar trechos com ritmos distintos ou lacunas que uma média global não descreve. Isso pode decorrer do funcionamento do sistema, da forma de armazenamento ou de transformações posteriores. A classificação exige exame do material, e não uma suposição baseada apenas na extensão do arquivo.

VFR, a taxa variável, não torna o vídeo automaticamente imprestável. CFR, a taxa constante, não torna a cronologia automaticamente correta. O procedimento adequado depende das informações disponíveis e de sua validação. Uma conversão pode produzir CFR duplicando imagens e redistribuindo tempos, sem acrescentar observações do acontecimento.

Quadros e intervalos: a primeira conferência

Entre dois quadros existem intervalos. Se a sequência é contínua e os índices inicial e final são 100 e 131, há 31 intervalos, embora a contagem inclusiva reúna 32 imagens. Em uma taxa regular de 20 FPS, esses 31 intervalos corresponderiam a 1,55 s.

Contar as 32 imagens e dividir por 20 produziria 1,60 s. Essa diferença nasce da contagem, não da taxa variável. O problema deve ser identificado antes de discutir a estrutura temporal. Começar a indexação em zero ou em um é uma convenção; usando os extremos corretamente, a diferença entre índices continua a representar o mesmo número de intervalos.

Uma divergência de quadros entre relatórios também pode decorrer de seleção de fluxo, extração, conversão, campos entrelaçados tratados como imagens ou duplicações. O parecer deve informar o critério de indexação e o material analisado, evitando comparar números que pertencem a sequências diferentes.

PTS e base de tempo

PTS, presentation timestamp, é a marca de apresentação. Em fluxos que utilizam valores inteiros, ela precisa ser interpretada na respectiva base de tempo. Um número como 12.000 não significa, isoladamente, 12.000 segundos: falta conhecer a unidade que acompanha aquele valor.

Se a base for 1/600 de segundo, um PTS de 12.000 corresponderá a 20 s na linha do tempo. Para dois valores expressos na mesma base, o intervalo é:

Δt = (PTS_final − PTS_inicial) · time_base

Campos já convertidos, como um tempo de apresentação em segundos disponibilizado pela ferramenta, podem facilitar a conferência. É necessário verificar seu significado e manter a precisão suficiente durante o cálculo. Arredondar previamente cada extremo pode introduzir diferença que não existia nos valores originais.

DTS e ordem de decodificação

DTS, decoding timestamp, relaciona-se à decodificação. Em determinadas formas de compressão, a ordem necessária para reconstruir imagens pode diferir da ordem de apresentação. Quadros B, por exemplo, podem utilizar referências que exigem essa reorganização.

Para uma cronologia de eventos visíveis, não se deve tratar qualquer marca de decodificação como se fosse o instante de apresentação. A ferramenta pode fornecer informações por pacote e por quadro; essas categorias também precisam ser distinguidas. Uma duração informada em um nível da estrutura não resolve automaticamente todos os intervalos de imagem.

O campo best_effort_timestamp representa uma marca disponibilizada pelo processo de decodificação para estimar a apresentação quando pertinente. O nome não assegura que o valor seja uma medição independente da captura. Sua utilização exige conhecer a origem, identificar eventuais valores ausentes e verificar coerência com outras informações disponíveis.

Exemplo: 20 FPS não representam necessariamente o trecho escolhido

Considere uma situação inteiramente hipotética. Um arquivo é apresentado com taxa nominal de 20 FPS. Os extremos escolhidos são os quadros 100 e 131. A análise das marcas de apresentação, em base de 1/600 s, fornece os dados abaixo. A tabela mostra apenas algumas posições, não todos os quadros do intervalo.

Quadro PTS inteiro Tempo de apresentação
100 12.000 20,000 s
101 12.030 20,050 s
102 12.090 20,150 s
103 12.120 20,200 s
131 13.080 21,800 s

Entre os primeiros pontos mostrados, os incrementos são 0,050 s, 0,100 s e 0,050 s. Portanto, a sequência apresentada não mantém o mesmo intervalo em todos esses passos. Entre os extremos, a diferença de PTS é 1.080 unidades; dividida por 600, corresponde a 1,80 s.

Pela hipótese nominal de 20 FPS, os 31 intervalos forneceriam 1,55 s. Pelas marcas examinadas, o trecho dura 1,80 s. A divergência de 0,25 s equivale aritmeticamente a cinco intervalos de 0,05 s, mas isso não demonstra que cinco quadros foram perdidos. Explicar sua origem exige analisar a sequência e a estrutura da mídia.

Consequência sobre uma velocidade calculada

Suponha, no mesmo exemplo, uma distância de 27 m tecnicamente determinada. Com 1,55 s, a velocidade média seria aproximadamente 62,7 km/h. Com 1,80 s, seria 54,0 km/h. O primeiro resultado supera o segundo em aproximadamente 16,1%, embora a distância e os extremos sejam os mesmos.

Esse percentual pertence apenas ao exemplo. Não representa um erro típico ou universal de gravações de segurança. A demonstração mostra que o denominador temporal pode alterar materialmente a conclusão e que a divergência deve ser resolvida antes de apresentar o resultado como medida.

A análise temporal também não corrige a componente espacial. Se a distância foi obtida com escala inadequada, o valor continuará comprometido. O cálculo de velocidade por vídeo exige tratar geometria, pontos rastreados e incerteza juntamente com a cronologia.

Como examinar a temporização de forma documentada

O profissional deve preservar o arquivo e trabalhar em uma cópia identificada. A extração precisa registrar ferramenta, versão, fluxo selecionado e campos consultados. Interessam as informações globais e, principalmente, os tempos dos quadros relevantes e suas diferenças sucessivas.

O ffprobe, do projeto FFmpeg, permite consultar fluxos e quadros. Um comando de levantamento, que deve ser adequado ao formato e à versão utilizados, pode selecionar campos como time_base, avg_frame_rate, r_frame_rate, pts_time e best_effort_timestamp_time. Os rótulos das taxas não devem receber significado universal sem considerar a documentação e o arquivo.

Uma tabela de auditoria pode reunir índice na ordem de apresentação, PTS, tempo em segundos e intervalo em relação ao ponto anterior. Valores ausentes, não monotônicos, duplicados ou inesperados precisam ser investigados. Não é adequado preencher automaticamente lacunas e utilizar a sequência reconstruída como se ela fosse informação diretamente registrada.

Ferramentas forenses como o Amped FIVE também oferecem recursos de inspeção temporal. A escolha da referência deve ser fundamentada na fonte e nas verificações, e não apenas no fato de uma opção estar disponível no programa.

Pausas, duplicações e descontinuidades

Um intervalo maior entre marcas pode indicar uma lacuna na apresentação, mas não revela sozinho sua causa. Pode haver comportamento do gravador, perda de registro, exportação específica ou outra transformação. A comparação com o conteúdo ajuda a avaliar coerência, sem substituir a investigação da estrutura.

Quadros visualmente iguais também exigem interpretação. Uma cena estática pode gerar imagens semelhantes; uma conversão pode duplicar quadros; um programa pode repetir a última imagem enquanto espera a próxima. Essas situações não devem ser tratadas como equivalentes sem exame.

Uma pausa visual pode ser tempo efetivamente transcorrido, um artefato de reprodução ou uma alteração posterior. Quando essa distinção afeta o cálculo, é necessário buscar a melhor fonte, conferir arquivos auxiliares e, se viável, examinar o comportamento do sistema de origem. A conclusão deve declarar o que foi demonstrado e o que continua condicionado.

Exportação e conversão podem reconstruir a linha do tempo

Uma transcodificação pode recodificar imagens, inserir ou eliminar quadros e gerar novas marcas de apresentação. Mesmo um arquivo que preserva a aparência do conteúdo pode deixar de conservar a estrutura temporal de interesse. Por isso, uma cronologia internamente regular não prova que ela reproduz a captura sem alterações.

Formatos proprietários podem armazenar informações em índices ou estruturas específicas. O reprodutor do fabricante pode interpretar dados que outro programa não reconhece. O exame precisa considerar a documentação e os arquivos associados, sem presumir que um único procedimento serve para todos os sistemas.

As boas práticas do SWGDE para temporização em formatos ISO base media possuem escopo técnico definido. Não devem ser estendidas indiscriminadamente a qualquer gravação ou arquivo convertido. A preservação de mídias digitais contribui para conservar as fontes necessárias a essa avaliação.

Cronologia interna e hora civil são questões diferentes

PTS geralmente descreve uma posição na linha do tempo do fluxo. Ele não estabelece, por si só, a data e a hora exatas do acontecimento. Uma gravação pode ter intervalos internamente coerentes e um relógio civil desajustado.

A hora sobreposta à imagem pode ter resolução limitada, atraso ou configuração incorreta. Um arquivo também pode começar em um tempo relativo diferente de zero. Essas condições precisam ser compreendidas antes de relacionar a mídia a telefonemas, registros de atendimento ou outra câmera.

Para sincronizar fontes, podem ser examinados eventos comuns, diferenças iniciais e possíveis desvios ao longo do trecho. Ajustar dois relógios pela hora exibida não garante simultaneidade quadro a quadro. A sincronização deve informar a referência utilizada e sua incerteza.

O que deve constar no parecer

O documento deve identificar a mídia, o fluxo, os extremos selecionados, o critério de indexação e a referência temporal adotada. Quando houver divergência entre taxa nominal e marcas de apresentação, ela precisa ser demonstrada com dados suficientes para reproduzir o cálculo.

Também interessa informar se as marcas foram extraídas, interpretadas ou reconstruídas, quais verificações sustentam sua relação com a gravação e quais limitações permanecem. Uma tabela curta dos pontos decisivos pode facilitar o contraditório sem exigir que o leitor examine milhares de linhas.

O resultado deve separar três perguntas: o que a estrutura do arquivo informa; se essa estrutura representa adequadamente o tempo do acontecimento; e como a incerteza temporal afeta a grandeza calculada. Confundir essas etapas transforma uma propriedade de codificação em uma garantia que ela não oferece.

Considerações finais

FPS e timestamp são informações relacionadas, mas respondem a perguntas diferentes. A contagem de intervalos deve estar correta; a taxa precisa representar o trecho; e as marcas temporais devem ser interpretadas e validadas em relação à fonte.

A referência mais direta disponível pode tornar a cronologia mais transparente, desde que não seja tratada como infalível. Quando esse exame é documentado, divergências de tempo e de quantidade de quadros deixam de ser diferenças inexplicadas entre relatórios e passam a constituir questões técnicas verificáveis, com consequências explícitas para a reconstrução.

Sobre o autor

Marco Carvalho é perito judicial cadastrado perante o TJMG, o TJSP e o TJGO. Atua em âmbito nacional como assistente técnico e perito particular na reconstrução de sinistros de trânsito e na análise forense de imagens e vídeos, prestando assistência técnica a advogados, escritórios e partes em todo o Brasil.

Referências

SCIENTIFIC WORKING GROUP ON DIGITAL EVIDENCE. Best Practice for Frame Timing Analysis of Video Stored in ISO Base Media File Formats. Documento 19-V-005.

SCIENTIFIC WORKING GROUP ON DIGITAL EVIDENCE. Best Practices for Digital Forensic Video Analysis. Versão 2.0, 10 dez. 2025.

FFMPEG PROJECT. ffprobe Documentation. Documentação oficial de consulta de fluxos, quadros e metadados.

POLITO, Emi. Measure Speed from Surveillance Video. Amped Software, 12 dez. 2023.

GUTTMAN, Barbara et al. Digital Evidence Preservation: Considerations for Evidence Handlers. NISTIR 8387, 2022. Fontes eletrônicas consultadas em 11 out. 2026.